Uma vez eu cheguei à escola, eu estava no ensino médio, que a gente chamava de segundo grau ou colegial naquela época, fui cumprimentar o menino com quem eu ficava o Daniel (o nome é fictício, você vai ver porquê). Quando cumprimentei o Daniel, com o habitual selinho que marcava que estávamos ficando, ou seja, “podem tirar o olho viu suas piriguetes”, umas meninas me puxaram e falaram que precisavam falar comigo, eu não entendi nada.
- Oh Flávia, você é louca?
- Louca? Não entendi?
- Você não vê TV não, porra?
- Vejo sim, mas o que tem a TV com o Daniel?
- Ontem, passou na TV que o Daniel matou a avó dele, deu um tiro na cara da véia, à queima roupa, mostrou foto da casa dele e tudo...
- Ai minha Nossa Senhora. Será? Vocês estão se confundindo, se fosse ele, ele não ia estar aqui agora, estava preso.
Todo mundo começou a se afastar do Daniel, fazendo umas caretas estranhas para ele, de medo mesmo. O Daniel era um rapaz tão bonito, moreno, tipo jambo, olhos verdes, era uma sensação na escola. Eu, muito esperta que sou, fui lá falar com o Daniel.
- Oh Daniel, o pessoal tá falando que você matou sua avó, que gente doida...
- Foi um acidente.
- Ai Jesus glorioso, você matou sua avó mesmo?
Ele fez uma cara de “o que que eu posso fazer?”, mas eu já tinha ralado peito quando ele terminou a frase. Ai gente, vocês não sabem o que é medo na vida, que medo.
A verdade é que este rapaz era um drogado, e a matéria no jornal disse que o Daniel matou a avó por tê-la confundido com um dragão. Disse que ele gritava desesperado: “Sai Dragão!”. A avó estava tentando dar comida para ele.
Sabe como foi possível o Daniel ter ido para escola no dia seguinte?
O pai ficou com peninha do bebê dele, fingiu que nada aconteceu, não deu queixa na polícia, ficou como se fosse um acidente. Deixou que o filho agisse como se nada tivesse acontecido, claro que a vítima era a sogra dele, não a mãe.
Passado algum tempo, o Daniel matou a própria irmã, que era paraplégica, nem tinha como se defender, também dentro de casa, drogado. Parece que dessa vez o pai não curtiu muito não. Deu queixa. Que eu me lembre, o Daniel era menor de idade, de forma que deve estar livre por aí...
Ele pode até estar livre, mas que seja no quinto dos infernos, morando com o papai gente boa dele.
Eu fiquei morrendo de medo de ir para a escola por dias, eu tinha certeza que o doido ia tentar me matar também ou coisa do tipo, a diretora me deixou em casa por uma semana.
Eu só falava: “Pelo amor de Deus, como que o menino me mata a avó e vem para a escola?”.
(Isso aconteceu de verdade em uma escola no bairro da Penha, na Zona Leste de São Paulo)
Lembro quando me contou essa história, agora chega a ser engraçado, mas deve ter sido um período tenso na sua vida.
ResponderExcluirBeijos...